quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Uma

Quando empilha e roça as magras coxas
– Possa a face roxa se aviltar –
Do feitio que não atreve à rua
Aí vejo que é mulher, ou que lembra muito uma.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Domingo

Como ir à praça
Dar comida aos pássaros
Balançar os filhos
Em balanços fáceis

Como pular pula pula
Pedir perdão a Deus
Do outro lado da rua

Comer duzentos gramas de pastel de queijo
Na Nossa Senhora da Paz

Domingo
Leva minha carcaça embora
Me embota, me dobra e me enlata
Que a delonga ingrata demora.

Que o adubo que verta do pus
- e haverá que verta, supus -
Sirva de piso aos pares.

Que os ares o cheiro me sintam
Como eu já lhes vasto senti.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Obituário

A tarde fototropística só não mata mais que o analfabetismo
Mas mata mais
Só não mata mais que o analfabetismo

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Embrulho

não quero causar náusea no vizinho
mas não quero
em mim
sentir a dele que não dei.

segunda-feira, 21 de março de 2011

quase nada


certa janela
que não guardo
em nenhum canto da memória

acima está
da vista está
do que passa quando olho.

é logo esta,
a luz acesa,
sem que nem um vulto passe

entre dois
prédios dois
(é nada, quase, e nada faz).

nela vejo
quase vejo
alguém ou algo, move ou para

a mobília
a família
o que risca a luz, é nada.

onde está
se é que habita
lá, quem ventilou a casa?

agora isto
agora insisto
estou parado, interpelado:

o universo
vê-me perto
abre a boca
e nada fala.

assim me está
na vista está
o que nada me aguarda.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Incursão pelos dias

incoerentemente
tente
sem titubeabá
ter
abater
ia
sido
ido
abatido
lindo
dormitá
deriva
derivar
se vá
volte
volt
soltitubeabá
ter
sol e tu
vem abater
some, tu
vem me bater
verme da terra
terna, terno
paletó.

Postiço

quero também
de ti
um amor postiço

pois, tu
postula
isto

amar quando
quem?

como?
por quê?

saiba pouco
ou nada
dá-me douto
nada.

pense é como
se atendesse
um pedido
dum menino desse

alcance
aquilo
ali
àqui

dá-me quando
tome quando

donde postiço.
tire inteiriço
e disso
como aprouver
deixe como lhe der.

a mim não importa
jogue porta
afora.
se é tu, ora,
pouca
dá-me outra
safa-me de tu.


basta
eu.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Espanto

Di repente,
vi que
muito pouco importava
vi que o mundo
era assim:
Repuxadas no estômago,
Calafrios na base da espinha,
Contrações do ânus e vertigem.

Nada é dito.

Sons de caminhão, na rua, embaixo
pedestre, aí.
Ruídos indefiníveis, mas
nitidamente trabalho.

O que dá
a porrada
O que recebe
a porrada.
O martelo e o prego.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Magrela

Magrela.
Era uma de pernas magras,
Os ombros ossos
e apesar
sobrava sobre a borda do short
a short amount of pele.

Não soavam os seios
tampouco ecoavam.
Era uma pressa de pernas magras,
levavam-na pelo Catete
e agora à Glória.

Quis saber quem mora contigo.
De qual praga
tu falas.
As baratas,
tuas manas, mãe.
A tia que tanto fala, e alto,
irrita.
(Seu nome é Rita).

Quem sabe não.
Morasses só e última
Como aquela minha que, sei, tu mimas

Fosse, o escuro, marrom
tosco de madeira tosca
A incandescência da lâmpada,
a pouca potência,
o resguardo do corpo ante a lembrança obesa;
impossível peso.
Pois caminha.

Ou fosse toda mentira
Como toda menina.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Morar

as casas ao longo
esses condomínios cinza
os blocos, essa
coisa matemática
o intervalo
o vão entre as...

Os automóveis:
abandonados.

dirigir um carro
é perdição, não
se volta mais pra casa, não
se dá corda no filho, na mulher
no marido.

é macilento
quem mora
nesse bafio rebento
essa escura escada jamais descida
quiçá subida, que
da estrada à ladeira leva
O pé que pisa
é invisível
é sem peso
porta a fora, a noite, só, há
soar um poste, laranja luz
nada cerca, nada sobre

as árvores, atentas.