quarta-feira, 22 de maio de 2013

Poema de Amor VI

"Eu preciso mandar notícia
Pro coração do meu amor me cunzinhar
Pro coração do meu amor me refazer
Me sonhar
Me ninar
Me comer
Me cunzinhar como um peru bem gordo
Me cunzinhar que nem anum-tesoura
Um bezerro santo
Uma nota triste.
Me cunzinhar como um canário morto (...)"
Carta, Tom Zé

A lâmina fria de amor interrompido me avermelha as costas
com seus tapas termicamente complexos
em manhãs de zumbidos agudos e eternos. 

Zumbidos de geradores elétricos,
os prédios que pingam suas umidades ao chão,
e o corpo em que me enxerta meu corpo -

já sempre ouço e devo ouvir os meus ruídos,
minhas digestões e perdas de frequências,
meus risos e vozes, 
devo ouvir ainda e ouço as desse corpo espaço-temporal cotidiano que me engoliu. 

Amor.
Tão concreto quanto os socos que levo,
um corte no corpo que a ele sirva de entrada.

Lento e implacável.
Como eterna infecção.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Basbaque II

pá, peito ou acém
sempre um no caminho de alguém.

domingo, 21 de abril de 2013

Basbaque I

A imponência de livros empoleirados
como pássaros empalhados
empoeirados.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Meninas

As vezes sem moção
Moções e mocinhas
As vezes sem mocinhas, foram vezes solitárias
infinito vezes as vezes solitárias. 

As crias das rinhas entre meninas, 
crias frias finas, 
narizes finos, seios finos, cinturas finas, olhos finos, quadris finos, 
ferina farta face fina. 

As crias das rinhas, rinhas minhas, meninas minhas, 
impossíveis vidas, 
vivas vertidos às impossíveis vidas vivas, 
as vezes solitárias vidas rinhas, ninharias mínimas minhas, 

meninas impossíveis solitárias, rinhas impossíveis solitárias entre mim e meninas finas. 

Sempre sem moção, 
moções e mocinhas, 
sem vinhas e vinhos, sem linhas e linhos. 

As vezes solitárias, tantas quantas todas apenas, 
moções solitárias meninas solitárias finas minhas solitárias.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Cabeça

Às vezes ouvia um estrondo na lataria do ônibus. Pensava que era alguém socando ou estapeando pra que o motorista parasse, apesar dos intervalos longos. Mas o cargo reincidia sem se apresentar o encarregado, e, ninguém entrava. Não se devia tratar disso portanto. O motorista checou pelo retrovisor, de pronto se assustou um pouco, mas continuou, cada vez mais rápido. Cada vez porque ainda parava nos pontos, o que descompensava o investimento de rapidez. Até que numa vez, depois de breve exame do retrovisor, parou o carro saltou do volante, voltou porque se esquecera de abrir a porta, abriu e saiu correndo para a parte de trás. Todos se ergueram parcialmente dos lugares, ao modo de pombos, esticando os pescoços, pelas janelas ou por cima dos colegas de banco. Os olhinhos vermelhos e ligeiros. O motorista ia ao socorro de um homem com o crânio partido. Aparentemente, ele vinha batendo com toda a força a cabeça na parte lateral e traseira do ônibus. Agora não se aguentava em pé, estatelado no chão, ao modo do pescoço que não aguentava a cabeça, quando o socorredor tentava erguer seu tronco. Estava todo quebrado, e o sangue. Rolavam os comentários idosos feitos inclusive por velhos, meu deus, jesus cristo, filho  da puta sem juízo, morreu!, viu, tudo é tão perigoso, só pode ser maluco, só dá maluco. E o sangue manchando o asfalto, secava nesta merda de dia quente da porra. Estalava no asfalto. E quando é que vinha o motorista, compadeço tudo muito bem, mas eu ainda conservo minha cabeça e lamento. Ficar aqui suando, pretender entrar no coro caro aos fatalistas, de gente é muito doida, caralho não há nada que fazer ou esperar de ninguém. Soltei um puta que pariu, o sujeito do meu lado, pois é, e eu, não você não entendeu. Aí me olhou como se visse um ser inteiramente estranho, não poderíamos ser da mesma espécie, sem chance. Ergueu-se pra ver melhor o infeliz lá embaixo. Aquele fedor do ônibus como não bastasse. Sem ar-condicionado, talvez com ele piorasse o fedor, mas pelo menos fedia-se sem calor. Eu suando, limpei meu rosto com a camisa, e fiquei olhando pra minha barriga. Peguei uma folha de jornal, era o Destak, que circulava pelo chão e enxuguei meu tronco. Constatei um limite grave transposto. Chamem uma ambulância, não adianta o cara achar que resolve sozinho, o cara já deve estar morto. Só deve ter parado porque morreu e não conseguia mais bater a cabeça. Desci a camisa, e ventilei a barriga e as costas, dando uns puxõezinhos na malha. Caralho. Levantei pra olhar. Abertaça, fala sério, esse cara tá morto. Pra lá de morto. Desci do ônibus e fui andando pro outro ponto entre o Parque Lage e o Clube Militar. Rsrs.

**

Almoçava minhas preocupações se voltaram para Lana. Era Laís, determinou que a chamássemos assim. Ela é dessas que escolhe o nome que lhe chamarão, não lhe dão nome. Acho interessante, mas não se trata disso. Ruminava sua imagem, que era bonita, todo o corpo. Não sei o quanto se interessava por mim. Julguei que talvez fosse suficiente para ligar propondo uma foda. Entre ela e eu, isto é. Ela não se procura impressionar com as coisas. Talvez ficasse desconcertada. Por telefone dava-lhe uma vantagem, de não poder ver seu rosto na hora. Liguei, tinha seu telefone, não me lembro quando peguei, se ela me deu, ou procurei tê-lo, fato é que tinha e liguei. Ela atendeu eu disse oi, tudo bom. Claro ela não sabia quem falava, falei sou eu e tal. Quer dizer, disse meu nome. Enfim. Você topa transar? O quê? Transar, você topa. Ah tá, você não tem namorada? Tenho. E então? E então o quê? E ela? Ela, o quê, sei lá, não, é só comigo, você topa? Não e ela é ok com isso? Não sei. Não acha melhor perguntar? Não, você topa? Não quero problema com ninguém. Você vai contar? Contar, hã, não. Nem eu, então vamo nessa. Mas cara, você nem é irresistível a ponto de eu passar por essa dor de cabeça. Ah fala sério. Fala sério é o caralho, não fode, eu até topava, entendeu, não tô fazendo nada, mas porra, não tô afim de dor de cabeça. Beleza eu falo com ela, se ela for tudo bem, topa? Beleza. Então beleza. Não liguei pra namorada. Foda-se. Disse que tudo ok, ela se animou, veio pra minha casa. Moro com dois caras. Fede. No meu quarto tem um fedor azedo suave, cuja origem desconheço. Transamos. Foi bom como normalmente é uma transa, nada de excepcional. Aliás, não sei se saberia reconhecer uma transa excepcional se participasse de uma. Ela parece ter se sentido de maneira parecida. Pelo menos no que concerne à primeira parte. Nada de excepcional. Acendeu um cigarro. Não sabia que você fumava. Só quando eu transo. Ah, então você não fuma fuma. Fumo. Entendi. Isso foi engraçado, aí fiz outra proposta. Escuta, você me faz um favorzão? Qual? É uma parada meio suja. Tipo o que?, se é de cozinhar, não sou de cozinhar, ou é metafisicamente má? Não, literalmente suja, de sangue. Hum. É o seguinte: eu quero bater minha cabeça na parede até morrer. Hum, tá. Sacou? Saquei, entro nisso onde, pra te enterrar? Se quiser, mas se quiser me deixar aqui tranquilo também. Mas ham, e aí? É porque eu não acredito que eu vou conseguir me matar assim, só conseguir foder minha cabeça e desmaiar. Tá. Aí queria que você pegasse sei lá, hã, pode ser um martelo, tem um maluco que mora aqui que tem um martelo, aí queria que você pegasse o martelo e me matasse quando eu cansar, pode ser? Ela pensou um pouco, não se desconcertou, acho que deve ter achado que eu tava tirando onda. Talvez eu estivesse, mas ela pagou pra ver aí fodeu. Ok, beleza, cadê o martelo? Catei no outro quarto. Dei pra ela e comecei. Claro que doeu pra caralho. Comecei a ficar tonto, e comecei a sangrar e a ficar meio triste. Vi que começava um orifício na parede. E que ele ficava vermelho bem de leve do meu sangue. Aí desmaiei. Fiquei considerando se ela ia fazer aquilo. Claro que por um momento eu quis que não. Julguei que enquanto eu me batia ela pudesse estar com o martelo na mão, assustada, querendo que eu parasse, naquele papo de mulher acuada, para com isso querido, vem pra cá, vamo foder que eu te faço jantar. Caralho, será que era isso que eu queria? Que merda. Bom, fato foi que logo acordei do desmaio. Não sei que pancada foi, se a terceira ou quarta, ou qual. Provavelmente não foi a primeira, já estava bem arrebentado. Gritei de dor, pra sacanear e ver se ela continuava. Urrei na verdade, afinal doía pior que tudo. Ela não se assustou. Quer dizer, teve um sobressalto no corpo, os dedos crisparam em volta do martelo suado sujo de sangue cabelos e pedaços de coisas, arreganhou os dentes, e lágrimas, algumas de cada olho despencaram, solícitas. Não chorava, nem o rosto avermelhava, aquelas verteram de outro modo. Parecia ódio, pena, nojo. Um inseto cujo modo de espirrar as tripas lembra o de um humano. Já não governava a mão, que desceu sobre mim e me fodeu a boca, partindo-me os dentes e as gengivas. Subia de novo descia. Afundou-me um olho depois. Experiência ímpar, apesar de aconselhar a ninguém. Ela estava me matando, sem vacilo. Que amor me obedecia.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Buraco

levemente traduzido de e ocasionado por "it's alright ma (i'm only bleeding)" do Bob Dylan e "head like a hole" do Nine Inch Nails

Cabeça qual ralo
imolada logo
em pelo
pelo dito fato
Corpo qual culo 
em cujo colo
a si próprio
afunda fundo
órgãos somados 
são ser são malsão 
mal são ser sem quem acuda. 

Puta merda mãe

curto a drupa treva mãe
não dela o sumo chupo 
tudo bom de boa bem de tudo certo mãe 

Só tem que durmo quando ergo a vista a ler a letra. 
Aí parece não vervejo quando a coisa fica preta. 

Nem a nega preta.
Nem a teta greta.

domingo, 18 de novembro de 2012

Estrago

Não enterrar a palavra num poema
Ou empalhá-la
Atulhando-lhe o peito
Que fica formosíssima assim
Mas morta.

Embora que pra isso
Tenha que não ter começado o que já comecei
Tenha que não ter dado o primeiro ai do resmungo que prossigo
Tenha que não ter trancado a palavra num quarto abafado sem janelas]
Tenha que não ter discordado de que ia bem a palavra sem mim
Tenha que não ter pigarreado este circunlóquio autoritário

Mesmo se acaba-se já o estrago está feito
e não adianta chorar o leite coalhado.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Poema de Morte II

Curvo-me ao ferro
Que não vara-me o ventre
fica ainda acena-me
sem face sem olhos
limpo, franco
sem ranho
ranhura
Inoxidável
duro e afável e dura
deixa claro cristalino
embrulha mo intestino
que me pode furar agora
não fure embora
mas pode
me fura
quer seja
Agora
ou depois e depois e depois
tudo que sucede agora
e torna a ser agora.

curvo-me ao ferro
que não vara-me o ventre
agora e agora e agora e agora

domingo, 11 de novembro de 2012

sob véu escuro sem luz elétrica queimamos tudo numa fogueira e dançamos porque as plantas o fogo e o plástico vibravam e dado estarmos regados

dali a dias não muitos de ordinário passamos mal

soubemos pouco ser por aquilo.
pelo mal entendido
grato
gratos