sexta-feira, 15 de abril de 2011

Embrulho

não quero causar náusea no vizinho
mas não quero
em mim
sentir a dele que não dei.

segunda-feira, 21 de março de 2011

quase nada


certa janela
que não guardo
em nenhum canto da memória

acima está
da vista está
do que passa quando olho.

é logo esta,
a luz acesa,
sem que nem um vulto passe

entre dois
prédios dois
(é nada, quase, e nada faz).

nela vejo
quase vejo
alguém ou algo, move ou para

a mobília
a família
o que risca a luz, é nada.

onde está
se é que habita
lá, quem ventilou a casa?

agora isto
agora insisto
estou parado, interpelado:

o universo
vê-me perto
abre a boca
e nada fala.

assim me está
na vista está
o que nada me aguarda.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Incursão pelos dias

incoerentemente
tente
sem titubeabá
ter
abater
ia
sido
ido
abatido
lindo
dormitá
deriva
derivar
se vá
volte
volt
soltitubeabá
ter
sol e tu
vem abater
some, tu
vem me bater
verme da terra
terna, terno
paletó.

Postiço

quero também
de ti
um amor postiço

pois, tu
postula
isto

amar quando
quem?

como?
por quê?

saiba pouco
ou nada
dá-me douto
nada.

pense é como
se atendesse
um pedido
dum menino desse

alcance
aquilo
ali
àqui

dá-me quando
tome quando

donde postiço.
tire inteiriço
e disso
como aprouver
deixe como lhe der.

a mim não importa
jogue porta
afora.
se é tu, ora,
pouca
dá-me outra
safa-me de tu.


basta
eu.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Espanto

Di repente,
vi que
muito pouco importava
vi que o mundo
era assim:
Repuxadas no estômago,
Calafrios na base da espinha,
Contrações do ânus e vertigem.

Nada é dito.

Sons de caminhão, na rua, embaixo
pedestre, aí.
Ruídos indefiníveis, mas
nitidamente trabalho.

O que dá
a porrada
O que recebe
a porrada.
O martelo e o prego.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Magrela

Magrela.
Era uma de pernas magras,
Os ombros ossos
e apesar
sobrava sobre a borda do short
a short amount of pele.

Não soavam os seios
tampouco ecoavam.
Era uma pressa de pernas magras,
levavam-na pelo Catete
e agora à Glória.

Quis saber quem mora contigo.
De qual praga
tu falas.
As baratas,
tuas manas, mãe.
A tia que tanto fala, e alto,
irrita.
(Seu nome é Rita).

Quem sabe não.
Morasses só e última
Como aquela minha que, sei, tu mimas

Fosse, o escuro, marrom
tosco de madeira tosca
A incandescência da lâmpada,
a pouca potência,
o resguardo do corpo ante a lembrança obesa;
impossível peso.
Pois caminha.

Ou fosse toda mentira
Como toda menina.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Morar

as casas ao longo
esses condomínios cinza
os blocos, essa
coisa matemática
o intervalo
o vão entre as...

Os automóveis:
abandonados.

dirigir um carro
é perdição, não
se volta mais pra casa, não
se dá corda no filho, na mulher
no marido.

é macilento
quem mora
nesse bafio rebento
essa escura escada jamais descida
quiçá subida, que
da estrada à ladeira leva
O pé que pisa
é invisível
é sem peso
porta a fora, a noite, só, há
soar um poste, laranja luz
nada cerca, nada sobre

as árvores, atentas.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Remendos

Nem houve menção de mundo
Percebe ou então não
Melhor o mundo sem notícias
Fingindo ouvir paisagem gasta
Mata és vaidosamente superestimada
e um eco não tem por que levantar a voz
Meu amor felicidade
Quando coisa é muita coisa
coração dos corações de repente tão sós
A canção no tambor é tempo
Dê cá um beijo e sorria pra outro
Só há poesia enquanto houver a noite inteira
De repentemente
Os seios pulam no vestido dementes de alegria
E o amor revivido nos braços dos homens
O vento sopra do outro lado do salão.
A onda bate e há música.
E ouvir os colares e pulseiras.
Fingindo ouvir um rosto.
Meu universo de vergonha.
A paisagem morna
Coração dos corações sorri
Ali mesmo não existe felicidade
Eles sorriem de um som feliz
Atravessando a mulata
As luzes apagam e saem do outro lado
Rasgo o vestido deserto
O mundo não ouviu quando falaram:
"Estás farto, Fulano"
dos que sabem que você é feia
Nada é só um ressentimento
O tambor no chão a abandoná-lo
De repente não existe felicidade
Linda música na rua
Abandonar tudo dos que sabem
E ouvir o senhor? Não senhor
A grama e as árvores em minha testa
Eu ao invés
E não há mais palavras
Sem se darem conta enquanto é tempo
No chão felicidade
Se achar bonita pra mim
Ela dança o desapego desatinada
Há pessoas dançando
minhas palavras falam só pra mim absolutamente
É sol antes de pensar em abandoná-lo
Degole o nome dele
Um universo revivido não existe
Abandonar tudo em absolutamente nada
Ali há só desapego
E ouvir escuro
A paisagem sobre o rosto
Não há controle ao redor
A banda é bela em abandoná-lo
Ela dança coisas
Ali mesmo felicidade
As luzes apagam as árvores
Ali há só ela por que terminar frases
Melhor desapego
Meu amor tudo enquanto é tempo
O mar muda música
E a canção sem cabeça dos homens
finge que o vento sopra

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Dois, três

o medo
da primazia
de quem
consome o assunto.

a vergonha
de phalar em púbico.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Barca

Por ora todos aguardam que passe. Algumas vezes tropeçam olhos nos meus, quando me dou conta, pisco longe. Estou mirando lá o horizonte. Mira-me de volta e pergunta-me qualquer coisa que não escuto. Escuro. Tem também a moça dos gatos. As cadeiras para os homens que não possuem uma perna, ou as duas. Essas são as cadeiras de rodas, sem motor. Com motor é libido. A outra não se conforma que eu seja bilíngüe, e que fale comigo mesmo. Quereria o quê? Que eu falasse com ela? Qual seja: “Perder tempo sozinho? Fale comigo, estranho”. Duvido, deve ser mais: morra, você é maluco, não consigo virar o rosto porque sua falta de escrúpulos me entretém, e isso é insuportável. Respondo-me, sim. Olha para mim, meu bem. Não tardará, jogarão no chão as correntes, e nós, manada, flutuaremos até Niterói. Tem as pessoas que entraram por onde sairiam as outras. As outras não compareceram, foi um esquecimento em massa. Não é tão mais indecoroso burlar os costumes, é mais simples. Nunca foi indecoroso. Seria agressivo: Pega ladrão! Os homens e as mulheres roubam meu lugar um passo antes do deles. Mas isso não importa, o que importa é importante sem que se lhe atribua importância. Aqui a máxima é o odor desprendido das axilas. Assim reconhece-se o nicho. Canta, ó nega musa, as dores de meu pai, de minha mãe, transcritas no sensório: sou fina e linda, e penetro narinas. Eu fedo porque existo, eu existo porque fedo? Feder é a maior contra conquista. Fazemos para descobrir que já estava feito. E esquecido, diria o outro. O chorume tem cheiro de laranja. Laranja podre, que seja, mas laranja. Lá, à frente, não é o ruivo feio que empunha a corrente. Hoje é o negro número 480.546 (quatrocentos e oitenta mil quinhentos e quarenta e seis) vivente no Brasil. Assim o faz, ele, majestosamente:

Ele tira um elo da corrente de um ganchinho. Ele tira outro elo da corrente de outro ganchinho. Ele larga ambos os elos. Bam! Que estrondo! Estamos livres e encaminhamo-nos para o espaço apertado. Os negros são mesmo o âmago do Brasil. Eles têm cor de terra. A terra tem a cor dos negros. A areia tem a cor dos amarelos. As fossas abissais, as rachaduras, os umbigos dos gordos, as vaginas, os cortes são os olhos do chinês, do japonês, do coreano, etc. A neve tem a cor do branco. “Porém não sei como é a neve, / Eu nunca vi a neve, / Eu não gosto da neve!”. O branco é da nuvem. A nuvem é do algodão doce. O doce é do açúcar. E o açúcar é branco, sacou?

Caminhamos. Longe vem um enigma, soando nas ondas da baía. Começa com “quem”, o resto não se ouve. Ou melhor, não o ouvi eu, outras pessoas aparentam compenetradas, acredito que possa ser na solução. Ou pretendem supor o que seja aquilo que vem depois de quem. Seria perigosa especulação? E Aristóteles falando sobre a comédia? Está claro? Meu bem se veste sempre com um laço no pescoço. Um dia perguntei-lhe o porquê daquilo. Não me respondeu, e cantou uma canção. Tempos depois, enquanto dormia, desatei o laço; sua cabeça caiu. Gritava comigo, ofendidíssima, e eu, me desculpando, explicava o incidente. Ela sentia-se exposta; eu já havia visto suas partes íntimas, mas nunca sua traquéia. E que traquéia, diga-se de passagem. Agora me declaro apaixonado e ela ressente-se. Não fala comigo. Pede-me apenas que a vire para parede, à guisa de desprezo por mim. Eu obedeço e me sinto desprezado. “Mas amo você”, digo eu. “Ama?”, diz ela. “Amo”, digo eu. E não diz mais nada. Eu me viro e vou embora.

Tem o moleque de cicatriz, feio, que quer me roubar. Eu quase o ouço dizendo “pa-ssa tu-do, po-rra”. Mas eu sou outro moleque, à parte. “Tudo” é muito metafísico para que eu possa passá-lo sem titubear. Assim, castrar as regras, nego isso. Não é possível que ele exista. Se eu existo, isto é. Não é possível que coexistamos. Não por uma questão de coerência, não por uma questão de sentido. Mas por que não é possível, simplesmente por isso, por ser uma impossibilidade. Não vai acontecer, não vai tomar lugar. Se fizer uma tentativa, aquilo se desconfigura, não possui forma, não é perceptível, é ultravioleta, não carrega coisa alguma. Eis uma alternativa plausível: ele vai se virar, tirar a roupa, o disfarce, e se revelará a mulher da minha vida. Essa é a verdade.