sábado, 5 de dezembro de 2015

mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (cf. DFW)

era uma história que me tocou em que a mãe morria no parto e sobrava o pai chorando com a nenezinha chorando nos braços aninhada num pano rosa e abaixo o relógio casio do pai no pulso esquerdo do pai e aquilo me tocou e eu pensei algo como a criatura chega já recebendo muito e pensei outra coisa como como era lindo e triste ver os dois choros e saber que pelo menos um era duplo inomináveis alegrias e tristezas e chorei também porque parecia enorme demais mas não era por isso que eu chorava eu chorava sem porquê e era enorme demais

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

aqui nada se parece comigo
separa-se comigo
estou no paraíso
está-se no paraíso
sinistro
está-se nisto.

domingo, 25 de outubro de 2015

non dolet

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimi toda dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria
se nada doesse isso assim

domingo, 18 de outubro de 2015

nenhuma urgência
é mais pateticamente urgente
do que a daquilo
de que
a gente se usa
pra tentar
estrangular o tédio.

Donde
às vezes
ver TV
ser caso
de morte ou vida.

solidão
é estar
sempre
atrasado?

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Poema de Amor IX

amo as vulvas turvas
muitas vezes
vi as veias verdes
dos seus seios
quis beber o sangue
ou o leite
ou o suor
ou a saliva
que você babava
quis tudo que cê secretava
a porra dos outros caras
todas as palavras silvadas
dos lábios úmidos
dos dentes secos espantados
quis todo o silêncio
do que cê não contava
cada segredo sem palavra
todas as lágrimas choradas
orgasmadas do inferno da cara

me odiasse matasse arrebentasse sem amar
que eu não corria que eu não podia que eu não queria
te recebo te celebro te mastigo
os lábios encharcados
alma glabra
em minha boca
quis minha vida velha toda
bela pouca e boa
alma doce amarga glabra pele calma.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Toda história
Exclui
O circunstante ignorante
Ou o torna a par
De sua soberania
Ignorando
Sua história
Seu rebotalho
Seu nada
Tão nada
Quanto a soberania
Da sabedoria

Ignora
A prova de vida
O silêncio
A dúvida
A incerteza
A tristeza
A alegria
A lágrima
A euforia
A liberdade.

Não me pergunte como estou
Eu não estou
Como eu tenho andado
Eu não tenho andado
O que eu tenho feito
Eu não tenho feito

Nada se conhece
E isso não seria mau
Se tudo não parecesse tão ignorado.

sábado, 3 de outubro de 2015

medo da mariana



















Sittin' here resting my bones
and this loneliness won't leave me alone
Otis Redding

MEDO DA SOLIDÃO
NÃO SENDO MEDO DE FICAR SÓ
ESTAMOS SÓS O TEMPO TODO
MAS MEDO DE NÃO CONSEGUIR SUPORTAR FICAR SÓ
OU
SE FORMOS PELO MACALÉ
QUE HÁ SEMPRE AO MENOS VOCÊ COM VOCÊ
ENTÃO É SIM MEDO DE FICAR SÓ
PORQUE NUNCA SE ESTÁ SÓ
E SE ACONTECE QUE ME SINTA SÓ
É QUE NÃO ESTOU SACANDO
ISTO É
SENTINDO
QUE COMIGO
ESTÁ EU
TAMBÉM
QUE EU
"É VOCÊ
VOCÊ
E VOCÊ."
(o quequandocomo suscita isso?
essa suma cegueira
de tudo quanto é sentido?)

EU NÃO SOU SÓ EU
"EU É UM OUTRO"
"E OUTRO
E OUTRO
ENFIM DEZENAS
TRENS PASSANDO
VAGÕES CHEIOS DE GENTE
CENTENAS"

SE EU SOU SÓ EU
SUPLÍCIO MÁXIMO
FADO EXASPERADO
SOLIDÃO IMPOSSÍVEL
OBSCURA COMO UM FATO
VIVIDA COMO QUEM SENTE A VIDA
NUNCA AINDA AQUI.

SOLIDÃO
A
PAVÓ
ORÁ
TUDO DEMORAN
DO EM SER
TÃO RUIM
MAS ALGUMA COISA ACONTÉ
CE
NO QUANDO AGÓ
RA EM MIM
CANTAN
DO EU MAN
DO A TRISTÊ
ZA EMBÓ
ORÁ.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

bicho
relaxa
ninguém chega
a se achar macho.

domingo, 9 de agosto de 2015

morrer como fiz agora
amor não como esta agonia retroativa
em retrospecto todo possível é impossível
queria a glória de um cu
ou o cu de uma glória