quarta-feira, 18 de maio de 2016

daí que não percevia
ainda o percevejo

quinta-feira, 7 de abril de 2016

que não está
senão longe
não estando
comove-se
pouco ou tanto
em desencontro
que não vem
e você sabe
e espera
é bom
ainda que

sábado, 27 de fevereiro de 2016

acabou



tu que me toma
por meu cadáver
que tu arrasta
com o gosto
de quem degusta
ainda
a carne presa
entre dentes:
aqui está ele puxando teu pé.

isso que tu chama fato
é o álibi da tua loucura

esse não
que tu chama rosto
é o esplendor hemorrágico
dum sim amputado

mas a mão que puxa teu pé
sabe que o mal é quando mau
que o teu refrão de fatos
ferve de vergonha
louco engasgado
preso à verdade
de sua veraz carne
não mais pulsando.

então tu trate de tentar
me enganar
melhor
diga "essa chuva e eu sem guarda chuva"
e talvez tu então me tenha te olhando contente.

sábado, 5 de dezembro de 2015

mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (cf. DFW)

era uma história que me tocou em que a mãe morria no parto e sobrava o pai chorando com a nenezinha chorando nos braços aninhada num pano rosa e abaixo o relógio casio do pai no pulso esquerdo do pai e aquilo me tocou e eu pensei algo como a criatura chega já recebendo muito e pensei outra coisa como como era lindo e triste ver os dois choros e saber que pelo menos um era duplo inomináveis alegrias e tristezas e chorei também porque parecia enorme demais mas não era por isso que eu chorava eu chorava sem porquê e era enorme demais

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

aqui nada se parece comigo
separa-se comigo
estou no paraíso
está-se no paraíso
sinistro
está-se nisto.

domingo, 25 de outubro de 2015

non dolet

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimi toda dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria
se nada doesse isso assim

domingo, 18 de outubro de 2015

nenhuma urgência
é mais pateticamente urgente
do que a daquilo
de que
a gente se usa
pra tentar
estrangular o tédio.

Donde
às vezes
ver TV
ser caso
de morte ou vida.

solidão
é estar
sempre
atrasado?

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Poema de Amor IX

amo as vulvas turvas
muitas vezes
vi as veias verdes
dos seus seios
quis beber o sangue
ou o leite
ou o suor
ou a saliva
que você babava
quis tudo que cê secretava
a porra dos outros caras
todas as palavras silvadas
dos lábios úmidos
dos dentes secos espantados
quis todo o silêncio
do que cê não contava
cada segredo sem palavra
todas as lágrimas choradas
orgasmadas do inferno da cara

me odiasse matasse arrebentasse sem amar
que eu não corria que eu não podia que eu não queria
te recebo te celebro te mastigo
os lábios encharcados
alma glabra
em minha boca
quis minha vida velha toda
bela pouca e boa
alma doce amarga glabra pele calma.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Toda história
Exclui
O circunstante ignorante
Ou o torna a par
De sua soberania
Ignorando
Sua história
Seu rebotalho
Seu nada
Tão nada
Quanto a soberania
Da sabedoria

Ignora
A prova de vida
O silêncio
A dúvida
A incerteza
A tristeza
A alegria
A lágrima
A euforia
A liberdade.

Não me pergunte como estou
Eu não estou
Como eu tenho andado
Eu não tenho andado
O que eu tenho feito
Eu não tenho feito

Nada se conhece
E isso não seria mau
Se tudo não parecesse tão ignorado.