quarta-feira, 19 de outubro de 2016

me deu tudo
menos nada

parece que não sabe

pensava que era clara
aquela parada
de perfeito que é perfeito
ter que ter falha

segunda-feira, 4 de julho de 2016

na morada
nada mora
namorada
morosa
nada amorosa

haja nela vento
vidro já ruído
nela o rumor da ruína
morosa
nada lá possa
ruidosa
ruir sem rir ruindo

sexta-feira, 17 de junho de 2016

porte
bem como se ensina
afina a vista, aviva
mínima, péssima.

menina tétrica
morte
bem como se ensina
a fina vida, firme.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

daí que não percevia
ainda o percevejo

quinta-feira, 7 de abril de 2016

que não está
senão longe
não estando
comove-se
pouco ou tanto
em desencontro
que não vem
e você sabe
e espera
é bom
ainda que

sábado, 27 de fevereiro de 2016

acabou



tu que me toma
por meu cadáver
que tu arrasta
com o gosto
de quem degusta
ainda
a carne presa
entre dentes:
aqui está ele puxando teu pé.

isso que tu chama fato
é o álibi da tua loucura

esse não
que tu chama rosto
é o esplendor hemorrágico
dum sim amputado

mas a mão que puxa teu pé
sabe que o mal é quando mau
que o teu refrão de fatos
ferve de vergonha
louco engasgado
preso à verdade
de sua veraz carne
não mais pulsando.

então tu trate de tentar
me enganar
melhor
diga "essa chuva e eu sem guarda chuva"
e talvez tu então me tenha te olhando contente.

sábado, 5 de dezembro de 2015

mais um exemplo da porosidade de certas fronteiras (cf. DFW)

era uma história que me tocou em que a mãe morria no parto e sobrava o pai chorando com a nenezinha chorando nos braços aninhada num pano rosa e abaixo o relógio casio do pai no pulso esquerdo do pai e aquilo me tocou e eu pensei algo como a criatura chega já recebendo muito e pensei outra coisa como como era lindo e triste ver os dois choros e saber que pelo menos um era duplo inomináveis alegrias e tristezas e chorei também porque parecia enorme demais mas não era por isso que eu chorava eu chorava sem porquê e era enorme demais

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

aqui nada se parece comigo
separa-se comigo
estou no paraíso
está-se no paraíso
sinistro
está-se nisto.

domingo, 25 de outubro de 2015

non dolet

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimi toda dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim
isso não dói

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria

isso não dói
espremida a dor da dor
exprimida a dor em sim uníssono
isso não dói mais do que doeria
se nada doesse isso assim

domingo, 18 de outubro de 2015

nenhuma urgência
é mais pateticamente urgente
do que a daquilo
de que
a gente se usa
pra tentar
estrangular o tédio.

Donde
às vezes
ver TV
ser caso
de morte ou vida.